segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Casual...

Um céu gris anunciava que o dia findaria triste... Péricles caminhava pela tarde para lugar nenhum, ou para qualquer lugar. Qualquer lugar, mesmo ali... As pessoas indiferentes a sua presença, circulavam pelo movimento ensurdecedor e frenético das ruas. Nas lojas de departamentos e em alguns apartamentos já precipitavam a noite, colorindo a cidade com suas lâmpadas elétricas e neons, sinal do desperdício contemporâneo.
             O dia, ou o fim dele, havia de ser diferente e especial, mas era apenas comum, pois no ápice dos seus ‘quarenta ponto uns...’, seus pensamentos passeavam por sua velha juventude remota e distante, enquanto seu corpo ainda resplandecia em virilidade juvenil, démodé, e expunha-se feroz, voraz, inteligível.
            Em esta parte da cidade, a vida parece que caminha lenta, cidade interiorana, onde as coisas vão devagar, ‘um homem vai devagar... êta, vida besta...’ como nos versos de Drummond. Péricles atravessou a rua deserta sem olhar para trás, as poças d’água refletiam seu vulto disforme. Caminhou até um ponto de ônibus qualquer e ficou a espera, a espera de que o ônibus que passasse iria levá-lo até o final em um bairro estranho, de ruas estranhas, casas estranhas, pessoas estranhas... Adentrar em algum bar estranho, tomar duas doses de conhaque ou vinho, prosear, tirar gosto e retornar; o convívio com pessoas estranhas e diferentes de seu meio era enriquecedor e gratificante. Estes passeios culturais faziam parte de sua vida, como um fetiche.
            A chuva já desabava em gotas minúsculas, beijando-lhe o rosto levemente e gotejava pela barba rústica por fazer a dois ou três dias. Havia, agora, pessoas encolhidas em seus sofrimentos e seus sentimentos frios indeléveis; pessoas que corriam da chuva para protegerem-se ou corriam pela urgência que a cidade impunha. “Ah! Essas pessoas solitárias, para onde vão?”. Para onde vou?
            Decidiu que o fetiche seria adiado, preferiu alterar a rota de seus desvarios e pegou o caminho da casa de uma amiga. Amiga esta que não via há algum tempo; amiga de um emprego enfadonho; mal remunerado, mas que a convivência e as amizades eram compensadoras. Iria visitá-la, queria compartilhar com ela o fim do dia e a entrada da noite.
            A rua estava deserta, talvez pela hora; talvez pelo dia ou pela chuva fina; chegou ao conjunto de apartamentos onde ela morava, aproveitou que algum morador ou visitante estava de saída e entrou no prédio, subiu as escadas e apertou a campainha... A surpresa da visita inesperada era um aliado ou inimigo oculto – uma faca de dois gumes. Havia um silêncio absurdo; depois sons dispersos e descompassados vindos do outro lado da porta, de dentro do apartamento.
            “Seriam de sandálias sobre o assoalho? Estaria sozinha?”, divagou.
            Enfim a porta foi aberta. Ella surgiu, linda, resplandecente, como sempre se mostrava; envolta em cambraia – o vestido colado ao corpo delineava as curvas, as derrapadas, aclives e declives, as formas perfeitas que o verde-limão florido moldava, tornando-a ainda mais sedutora. O cabelo solto, liso; a tez morena; os lábios cor de mel; era pequena no jeito e na estatura, Iracema encarnada... As sandálias da mesma cor do vestido velavam os pés pequenos e delicados.
            O sobressalto passado, Ella abraçou-o, beijou-lhe rápido a boca e convidou-o a entrar.
            - Você sempre me surpreendendo, hein... Entre e fique à vontade.
            - E não há nenhum problema em me receber... Os vizinhos...
            Ella pousou a cabeça sobre os seus próprios ombros, piscou e disse: “Mi casa, su casa”, e Péricles pode distinguir um estalo, o crepitar da língua dela chicoteando o céu da boca em meio o balbuciar sensual da frase.
            Um sofá azul, coberto por uma manta vermelha e almofadas pequenas em estilo árabe, lhe fora indicado como assento; Péricles atendeu prontamente o pedido, assentou-se recostando no espaldar, permitindo que o corpo acomodasse-se. Dirigindo-se ao bar, Ella recolheu uma garrafa de vinho tinto e depositando-a na mesa de centro em frente a Péricles.
            - É minha sugestão para aquecer as palavras e pela chuva...
            - Aceito por ser o meu néctar de predileção e para secar estas gotas que ainda insistem em manter-me úmido.
            Ella retornou ao bar, recolheu o saca-rolha, voltou estendendo-o a Péricles que se prontificou em abrir a garrafa de vinho, enquanto Ella desaparecia por uma porta acortinada por pequenos pedaços de bambus entrelaçados por sisal, que quando movimentados produziam um som parecido com móbiles orientais que dizem, trazem harmonia para dentro da casa de quem às possui se embalados pelo vento, naquele momento o vento era o corpo da amiga.
            Péricles perscrutou brindes imaginários, portas sendo abertas e fechadas, o esgrimir de talheres e depois, silêncio... Ella voltou com duas taças de vinho pendendo entre os dedos da mão esquerda e na direita, uma baixela contendo queijos cheddar e prato e presunto cozido, cortados em pequenos cubos, que também, foram depositados na mesa de centro. Servido o vinho às taças, degustaram do mel e do repasto frugal, Ella sorvendo todo o conteúdo de uma vez e Péricles lentamente, captando o momento e tornando-o infinito. Conversaram trivialidades, riram juntos, Péricles pediu licença, levantou-se foi até a estante, pesquisou alguns títulos e após escolher a esmo, introduziu o disco de cd no aparelho e deixou a música inundar o ambiente. Cantarolaram alguns versos das músicas que desfilavam para eles.
            Em um movimento lépido, Ella retirou-se da sala pelo mesmo acortinado deixando atrás de si os diversos sons de bambus e desapareceu. Voltou poucos minutos depois com uma talha de barro em uma das mãos e na outra pendulava uma toalha pequena de cambraia branca. Ella postou-se diante de Péricles, afastou a mesa de centro, ajoelhou-se, pousou a talha e a toalha no tapete de motivo indiano, ergueu o rosto e disse:
            - Recoste-se no sofá, feche os olhos e os mantenha assim... De maneira nenhuma você pode abri-los.   
            Péricles assentiu, cegamente...
            A taça de vinho fora-lhe arrebatada da mão. Ouviu-se o som de um líquido sendo despejado na talha, um som seco, comprimido; a toalha de cambraia branca foi envolvida pelo líquido e torcida, agora era mais esparso, solto, era o vinho tinto...
            A mão de Ella deslizou por sobre o jeans de Péricles, alcançou o fecho-éclair... Ella percebeu a vibração involuntária nas pupilas de Péricles, disse: “Não!”
A mão avançou vagarosamente sobre o fecho, e seguro por entre os dedos, foi deslizado até sua base; o emaranhado de tecidos foi afastado e o pênis foi envolvido como se envolve um pássaro quando tirado do ninho e libertou-o. Péricles retesou o corpo ao sentir o tecido úmido e frio encobrir seu falo, que a partir deste gesto viu-se sendo banhado e limpo, e, a cada mergulho da cambraia na talha e a cada banho e limpeza, tornava-se mais hirsuto. O vinho gelado fez com que o corpo de Péricles enrijecesse ainda mais, porém o banho já estava findo, Ella havia terminado a limpeza com o mesmo carinho devocional que se dedica a um pássaro antes de soltá-lo.
               Péricles obteve novo enrijecimento do corpo, o choque térmico quase o fez abrir os olhos, agora era um calor morno, suave, bom... Eram os lábios de Ella. Péricles tentou esboçar uma reação e pensou em agarrá-la, deitá-la no tapete de motivo indiano, e possuí-la ali mesmo, mas Ella simplesmente espalmou a mão sobre o seu peito e desviando da performance, disse:
            - Não abra os olhos e fique imóvel...
            A obediência é a melhor das virtudes humanas. Enquanto Ella proporcionava-lhe um prazer inenarrável, Péricles deixou-se ficar imóvel; e isto era muito bom e durou um tempo do qual Péricles não se preocupou em mensurar.
            Os acontecimentos vividos até ali, eram fascinantes, um sonho inerente àquele acontecimento, destarte, o perigo, também. Ocorreu a Péricles o flagrante. Ele mal conhecia o marido – se é que Ella ainda estivesse casada, eles não haviam participado o assunto -, o amante ou seja quem quer que fosse; apenas o tinha visto em companhia de Ella e o cumprimentado nas pouquíssimas vezes em que seus colegas comuns, em casa destes, compartilhavam saraus, aniversários e confraternizações, apenas uma cordialidade muitas vezes recíproca. Sob o domínio do medo, a melhor aliada é a calma, a serenidade de espírito. Como sempre depois da tempestade, os pensamentos de Péricles abandonaram o pânico inicial e ele pôde entregar-se a bonança, deixando-se deleitar e ser deleitado. Era um sonho...
            A mão direita de Ella ainda mantinha-o estático em seu lugar; Péricles não queria despertar do sonho. Sentiu que o orgasmo final não iria demorar a eclodir e deixou com Ella as rédeas, afinal, ela era a dona da situação. Péricles não sentira nada tão irreal; precipitou-se um leve devaneio, uma vertigem que lhe revirou os olhos e desfaleceu... Quando voltou a si, milésimos de segundos depois, Ella absorvera tudo: a mesa de centro em seu lugar, a talha de barro e a toalha de cambraia desaparecidas, as taças de vinho cheias, o falo guardado em seu repouso habitual. Péricles olhou para Ella e os doces olhos amendoados brilhavam com uma luminosidade viva. Ella caminhou até ele, beijou-lhe a boca e seus lábios cor-de-mel ainda conservavam o gosto agridoce.
            - Sinto muito, meu amigo, mas agora você precisa ir para que eu possa tomar um banho e me recompor...
            Ella enlaçou o braço de Péricles e o acompanhou até a porta, beijou-lhe novamente os lábios e quando ele alcançou o primeiro lance da escada, disse:
            - Péricles...
            Ele voltou-se; Ella semicerrou os pequeninos olhos, piscou um deles e fechando a porta em lentamente, solfejou:
            “- FELIZ ANIVERSÁRIO...”

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