“... não sei como fui parar ali, só sei que me vi em frente de seu apartamento, aguardando a sua chegada. Embora a espera não fosse longa, alguma coisa me impacientava, talvez pela ansiedade na antecipação dos acontecimentos ou pela angústia por antever os fatos.
Você apareceu. Minha vontade era de te abraçar, me enroscar em seu corpo, só pela delícia em poder senti-la, mas, me resguardei. Também, era só ilusão, porque eu não poderia tocá-la dentro desta forma etérea, mesmo que eu quisesse. Você entra pelo portão principal, passa pelo hall de entrada, sobe os degraus que te levam ao seu apartamento. Você me guia.
Na tentativa vã de introduzir a chave na fechadura para abrir a porta, o molho escapa-lhe da mão e um barulho metálico e seco da chave contra a pedra fria do chão, faz-se e você olha na minha direção ou para o nada. Faz uma cara feliz como se tivesse me visto, posso sentir seu hálito quente. Agacha-se, recolhe o molho e ao se levantar trás consigo um calor que desprende de seu corpo.
Abre, enfim, a porta. Entra... Abraça seus filhos, faz festa. Ouve atenta uma afrontar a outra para depois se paramentarem de elogios recíprocos; desses que inflam o ego e nos faz pequeninos ou gigantes, nos faz sentirmos inferiores ou superiores, mas que não passam de bobagens fraternas. Como mãe e mulher acalenta a ambas com carinho verdadeiro, sem mensurar em balança, com o cuidado e a certeza de que o peso foi bem equacionado e distribuído igualmente, fazendo que suas filhas compreendam que uma necessita da outra e que intrigas são insignificantes tolices que não levam a nada e nem edificam o convívio de ninguém. Sela o impasse beijando-as. Questiona a babá sobre o comportamento das meninas durante o dia e elas já haviam tomado banho e jantado, diante da resposta positiva volta-se para as meninas dizendo do horário avançado e as manda para a cama e dispensa a babá, que sai apressadamente para o encontro idílio com o amante. Ela sorri e encaminha até o quarto, acomoda as filhas em suas camas.
Retira o livro de estórias da estante e continua a leitura de onde tinha parado na noite anterior: “o príncipe encantado monta em seu corcel branco... – que criança entre um ou dois anos vai saber o que é corcel branco – porém a criança entre um e dois anos já está adormecida, o dia fora longo... Ela para a leitura por um instante, vai até a filha adormecida, murmura algumas palavras indeléveis e retoma a leitura de onde tinha parado. A filha mais velha resiste, no entanto, após algumas cavalgadas pelas planícies e florestas, lutas contra dragões e salvamento de mais uma donzela, a pequenina adormece profundamente sonhando em ser salva do dragão e vivenciando outras aventuras oníricas.
Amor maternal cumprido, dirige-se a seu quarto de dormir. Atravesso as paredes, adiantando-me a ela; e recosto no umbral da cama de casal. Ela deposita a bolsa no armário de roupas. Suspira. Um olhar de maranhão e cansaço refletido no espelho a transporta para a rotina do dia que ela não sabe se abandona tornando-se prisioneira do lar, como tantas outras mulheres fazem, mulheres fracas, submissas a homens frios e cruéis ou agarra-se ao emprego que tem como tábua de salvação no mar de procela de uma vida ordinária. Outro suspiro. Cruza os braços por sobre o corpo, em um ballet esquisito e segurando as extremidades da blusa, a retira por sobre a cabeça revelando a pele branca, carente de sol, clara como a luz da lua, realçada pela sutien azul-cobalto que lhe deixa a silhueta sexy; porém um muxoxo no canto da boca quer lhe convencer da existência de uma ‘gordurinha’, uma saliência que lhe é apenas peculiar aos seus olhos, pensamentos e vaidade. Atira a blusa com raiva na minha direção, como se tivesse lido meus pensamentos ou os escutado; a blusa, porém, traspassa-me e cai disforme sobre o travesseiro.
O balé exótico continua... após um breve bailado no ar, as mãos lentamente alcançam o botão da calça, que liberto pende para o lado. Os dedos afoitos fazem o zíper deslizar sobre o fecho-éclair, revelando uma calcinha da mesma cor do sutiã. A calça, felizmente, não tem a mesma sorte da blusa: é dobrada, posta em um cabide e colocada espremida por entre as outras de cores várias no armário.
Ela senta-se na cama. Suspira, pela terceira vez. Liberta-se do sutiã e apossa-se de uma toalha carmim, felpuda, vai ao banheiro, pendura a toalha no cabideiro, deixando a porta entreaberta. Retira a calcinha, como que embalada por uma doce música, depositando-a no cesto de roupas por lavar.
-“Tenho que lavar as roupas!”, murmura melancolicamente.
Adentra no box, abre a torneira do chuveiro ao máximo e a água mista entre morna e fria choca-se contra seu corpo quente que estremece e o arrepio lhe tira do peito um “ah!...” intenso. Agacha-se e fica por um tempo indefinido com a água mista e mística lambendo-lhe o rosto, costas, seios, umbigo, pentelhos, nádegas, pernas e pés. Ergue-se, enfim, esfolia o corpo com a bucha vegetal. Pronto. Está novamente limpa do dia, da cidade, da rotina, das pessoas, está limpa de toda está sujeira contemporânea e moderna. Sai do box, enxuga o corpo. Vai ao quarto de dormir, escolhe uma calcinha minúscula e sexy, daquelas que permitem aos homens entrever as nádegas por inteiro e a púbis só parcialmente. Prefere ficar sem... Só o penhoar.
Agora, ela espera. A noite adensa-se e o silêncio incide e começa a reinar. A espera continua... Por um instante, ela esquece-se da espera, vai até o quarto de dormir das crianças, certifica-se que estão dormindo profundamente, beija-lhes a face, retorna ao seu quarto e ... espera.
Termina sua vigília. Seu amado chega, cumprimenta-a com um aceno e um beijo seco, todavia, com desejo. Ele se encaminha para o quarto do casal, retira uma toalha azul marinho do armário, entra na sala de banho e após um breve silêncio, ouve-se o barulho da água em atrito com um corpo.
Ela levanta-se da cama, apaga a luz do abajur, o quarto penumbra-se. Sentado sobre a cômoda, assisto a toda a cena, assisto a tudo e admiro-a. Ela está deslumbrantemente linda, assim, apenas o penhoar cobrindo a pele, deixando-me entrever suas curvas, os seios jovens empinados, a púbis negra. Ela retorna à cama e continuo a contemplá-la por mais um instante, até que a queda d’água na sala de banho cessa seu barulho, a porta é aberta e em um sobressalto, desço da cômoda, tomo assento a uma poltrona solitária a um canto do quarto e espero... O idílio vai começar.
O amante vem envolto na toalha azul, que ao deparar-se com ela, preguiçosamente lânguida sobre a cama, sorri maliciosamente e deliberadamente em um gesto abrupto, atira o tecido úmido que o envolve a um canto. Em um movimento preciso do corpo, com o membro já intumescido, arrebata da mulher a única peça que a protege da investida ao mesmo tempo doce e selvagem. Abre-lhe as pernas, uma flor rosácea de cheiro agridoce revela-se em meio ao jardim púbico. Ele não resiste e como um animal no cio, cheira-lhe a rosa, beija-a, lambe-a, brinca com a flor. A mulher estremece, como lhe ocorrera na sala de banho, quando a água morna e fria a havia lambido também. Cerra os olhos. Desliza a língua pelos lábios, umedecendo-os. Seu amado não pára.
“A noite poderia ser mais longa”, seus olhares dizem.
O prelúdio quase a desfalece: ela esmaga os lençóis entre os dedos da mão; comprime as pernas; as mãos libertando o lençol envolvem a cabeça do amado apertando-a contra sua rosa e seu jardim, como se quisesse enterrá-la. Abre os olhos, olhar de neném. Vê seu amante amado erguer-se e agigantar-se a sua frente e penetrá-la com volúpia, o corpo desprendendo suor; a batalha é árdua, porém maravilhosa e novamente cerra os olhos.
Bem que eu desejaria presenciar a batalha até seu desfecho; saber quem foi o vencedor e quem foi o vencido; se bem que estas batalhas não deixem vencedores ou vencidos. Desejaria vê-los se amando até a estocada derradeira, caírem exaustos. Contenho-me. Ergo-me da poltrona solitária, vou até o lado da cama, que ora é uma arena, ora um coliseu de prazeres, onde a cabeça da amante pende, agacho e sussurro palavras indeléveis ao seu ouvido e que sei que ela jamais ouvirá. Beijo-lhe a testa tensa e úmida. Um estranho triângulo se forma. Um sorriso expossa-se a um canto da boca, tornando o batom mais espesso, e deixando-me estupefato: não sei distinguir se foi um orgasmo ou se ela sentiu o ósculo. Ergo-me para retirar-me e deixá-los à sós, em sua batalha sem perdedores. Ela, por um momento, abre os olhos e me fita. Olhar maranhão? Será que ela me viu? Ou sentiu a minha presença? Presunção... Não sei... Nunca saberei.
Atravesso as paredes e ganho as ruas, me perco na noite escura e silenciosa...


