segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Voyeurismo

“... não sei como fui parar ali, só sei que me vi em frente de seu apartamento, aguardando a sua chegada. Embora a espera não fosse longa, alguma coisa me impacientava, talvez pela ansiedade na antecipação dos acontecimentos ou pela angústia por antever os fatos.
            Você apareceu. Minha vontade era de te abraçar, me enroscar em seu corpo, só pela delícia em poder senti-la, mas, me resguardei. Também, era só ilusão, porque eu não poderia tocá-la dentro desta forma etérea, mesmo que eu quisesse. Você entra pelo portão principal, passa pelo hall de entrada, sobe os degraus que te levam ao seu apartamento. Você me guia.
            Na tentativa vã de introduzir a chave na fechadura para abrir a porta, o molho escapa-lhe da mão e um barulho metálico e seco da chave contra a pedra fria do chão, faz-se e você olha na minha direção ou para o nada. Faz uma cara feliz como se tivesse me visto, posso sentir seu hálito quente. Agacha-se, recolhe o molho e ao se levantar trás consigo um calor que desprende de seu corpo.
            Abre, enfim, a porta. Entra... Abraça seus filhos, faz festa. Ouve atenta uma afrontar a outra para depois se paramentarem de elogios recíprocos; desses que inflam o ego e nos faz pequeninos ou gigantes, nos faz sentirmos inferiores ou superiores, mas que não passam de bobagens fraternas. Como mãe e mulher acalenta a ambas com carinho verdadeiro, sem mensurar em balança, com o cuidado e a certeza de que o peso foi bem equacionado e distribuído igualmente, fazendo que suas filhas compreendam que uma necessita da outra e que intrigas são insignificantes tolices que não levam a nada e nem edificam o convívio de ninguém. Sela o impasse beijando-as. Questiona a babá sobre o comportamento das meninas durante o dia e elas já haviam tomado banho e jantado, diante da resposta positiva volta-se para as meninas dizendo do horário avançado e as manda para a cama e dispensa a babá, que sai apressadamente para o encontro idílio com o amante. Ela sorri e encaminha até o quarto, acomoda as filhas em suas camas.
            Retira o livro de estórias da estante e continua a leitura de onde tinha parado na noite anterior: “o príncipe encantado monta em seu corcel branco... – que criança entre um ou dois anos vai saber o que é corcel branco – porém a criança entre um e dois anos já está adormecida, o dia fora longo... Ela para a leitura por um instante, vai até a filha adormecida, murmura algumas palavras indeléveis e retoma a leitura de onde tinha parado. A filha mais velha resiste, no entanto, após algumas cavalgadas pelas planícies e florestas, lutas contra dragões e salvamento de mais uma donzela, a pequenina adormece profundamente sonhando em ser salva do dragão e vivenciando outras aventuras oníricas.
            Amor maternal cumprido, dirige-se a seu quarto de dormir. Atravesso as paredes, adiantando-me a ela; e recosto no umbral da cama de casal. Ela deposita a bolsa no armário de roupas. Suspira. Um olhar de maranhão e cansaço refletido no espelho a transporta para a rotina do dia que ela não sabe se abandona tornando-se prisioneira do lar, como tantas outras mulheres fazem, mulheres fracas, submissas a homens frios e cruéis ou agarra-se ao emprego que tem como tábua de salvação no mar de procela de uma vida ordinária. Outro suspiro. Cruza os braços por sobre o corpo, em um ballet esquisito e segurando as extremidades da blusa, a retira por sobre a cabeça revelando a pele branca, carente de sol, clara como a luz da lua, realçada pela sutien azul-cobalto que lhe deixa a silhueta sexy; porém um muxoxo no canto da boca quer lhe convencer da existência de uma ‘gordurinha’, uma saliência que lhe é apenas peculiar aos seus olhos, pensamentos e vaidade. Atira a blusa com raiva na minha direção, como se tivesse lido meus pensamentos ou os escutado; a blusa, porém, traspassa-me e cai disforme sobre o travesseiro.
            O balé exótico continua... após um breve bailado no ar, as mãos lentamente alcançam o botão da calça, que liberto pende para o lado. Os dedos afoitos fazem o zíper deslizar sobre o fecho-éclair, revelando uma calcinha da mesma cor do sutiã. A calça, felizmente, não tem a mesma sorte da blusa: é dobrada, posta em um cabide e colocada espremida por entre as outras de cores várias no armário.
            Ela senta-se na cama. Suspira, pela terceira vez. Liberta-se do sutiã e apossa-se de uma toalha carmim, felpuda, vai ao banheiro, pendura a toalha no cabideiro, deixando a porta entreaberta. Retira a calcinha, como que embalada por uma doce música, depositando-a no cesto de roupas por lavar.
            -“Tenho que lavar as roupas!”, murmura melancolicamente.
            Adentra no box, abre a torneira do chuveiro ao máximo e a água mista entre morna e fria choca-se contra seu corpo quente que estremece e o arrepio lhe tira do peito um “ah!...” intenso. Agacha-se e fica por um tempo indefinido com a água mista e mística lambendo-lhe o rosto, costas, seios, umbigo, pentelhos, nádegas, pernas e pés. Ergue-se, enfim, esfolia o corpo com a bucha vegetal. Pronto. Está novamente limpa do dia, da cidade, da rotina, das pessoas, está limpa de toda está sujeira contemporânea e moderna. Sai do box, enxuga o corpo. Vai ao quarto de dormir, escolhe uma calcinha minúscula e sexy, daquelas que permitem aos homens entrever as nádegas por inteiro e a púbis só parcialmente. Prefere ficar sem... Só o penhoar.
            Agora, ela espera. A noite adensa-se e o silêncio incide e começa a reinar. A espera continua... Por um instante, ela esquece-se da espera, vai até o quarto de dormir das crianças, certifica-se que estão dormindo profundamente, beija-lhes a face, retorna ao seu quarto e ... espera.
            Termina sua vigília. Seu amado chega, cumprimenta-a com um aceno e um beijo seco, todavia, com desejo. Ele se encaminha para o quarto do casal, retira uma toalha azul marinho do armário, entra na sala de banho e após um breve silêncio, ouve-se o barulho da água em atrito com um corpo.
            Ela levanta-se da cama, apaga a luz do abajur, o quarto penumbra-se. Sentado sobre a cômoda, assisto a toda a cena, assisto a tudo e admiro-a. Ela está deslumbrantemente linda, assim, apenas o penhoar cobrindo a pele, deixando-me entrever suas curvas, os seios jovens empinados, a púbis negra. Ela retorna à cama e continuo a contemplá-la por mais um instante, até que a queda d’água na sala de banho cessa seu barulho, a porta é aberta e em um sobressalto, desço da cômoda, tomo assento a uma poltrona solitária a um canto do quarto e espero... O idílio vai começar.
            O amante vem envolto na toalha azul, que ao deparar-se com ela, preguiçosamente lânguida sobre a cama, sorri maliciosamente e deliberadamente em um gesto abrupto, atira o tecido úmido que o envolve a um canto. Em um movimento preciso do corpo, com o membro já intumescido, arrebata da mulher a única peça que a protege da investida ao mesmo tempo doce e selvagem. Abre-lhe as pernas, uma flor rosácea de cheiro agridoce revela-se em meio ao jardim púbico. Ele não resiste e como um animal no cio, cheira-lhe a rosa, beija-a, lambe-a, brinca com a flor. A mulher estremece, como lhe ocorrera na sala de banho, quando a água morna e fria a havia lambido também. Cerra os olhos. Desliza a língua pelos lábios, umedecendo-os. Seu amado não pára.
            “A noite poderia ser mais longa”, seus olhares dizem.
            O prelúdio quase a desfalece: ela esmaga os lençóis entre os dedos da mão; comprime as pernas; as mãos libertando o lençol envolvem a cabeça do amado apertando-a contra sua rosa e seu jardim, como se quisesse enterrá-la. Abre os olhos, olhar de neném. Vê seu amante amado erguer-se e agigantar-se a sua frente e penetrá-la com volúpia, o corpo desprendendo suor; a batalha é árdua, porém maravilhosa e novamente cerra os olhos.
            Bem que eu desejaria presenciar a batalha até seu desfecho; saber quem foi o vencedor e quem foi o vencido; se bem que estas batalhas não deixem vencedores ou vencidos. Desejaria vê-los se amando até a estocada derradeira, caírem exaustos. Contenho-me. Ergo-me da poltrona solitária, vou até o lado da cama, que ora é uma arena, ora um coliseu de prazeres, onde a cabeça da amante pende, agacho e sussurro palavras indeléveis ao seu ouvido e que sei que ela jamais ouvirá. Beijo-lhe a testa tensa e úmida. Um estranho triângulo se forma. Um sorriso expossa-se a um canto da boca, tornando o batom mais espesso, e deixando-me estupefato: não sei distinguir se foi um orgasmo ou se ela sentiu o ósculo. Ergo-me para retirar-me e deixá-los à sós, em sua batalha sem perdedores. Ela, por um momento, abre os olhos e me fita. Olhar maranhão? Será que ela me viu? Ou sentiu a minha presença? Presunção... Não sei... Nunca saberei.
            Atravesso as paredes e ganho as ruas, me perco na noite escura e silenciosa...

Casual...

Um céu gris anunciava que o dia findaria triste... Péricles caminhava pela tarde para lugar nenhum, ou para qualquer lugar. Qualquer lugar, mesmo ali... As pessoas indiferentes a sua presença, circulavam pelo movimento ensurdecedor e frenético das ruas. Nas lojas de departamentos e em alguns apartamentos já precipitavam a noite, colorindo a cidade com suas lâmpadas elétricas e neons, sinal do desperdício contemporâneo.
             O dia, ou o fim dele, havia de ser diferente e especial, mas era apenas comum, pois no ápice dos seus ‘quarenta ponto uns...’, seus pensamentos passeavam por sua velha juventude remota e distante, enquanto seu corpo ainda resplandecia em virilidade juvenil, démodé, e expunha-se feroz, voraz, inteligível.
            Em esta parte da cidade, a vida parece que caminha lenta, cidade interiorana, onde as coisas vão devagar, ‘um homem vai devagar... êta, vida besta...’ como nos versos de Drummond. Péricles atravessou a rua deserta sem olhar para trás, as poças d’água refletiam seu vulto disforme. Caminhou até um ponto de ônibus qualquer e ficou a espera, a espera de que o ônibus que passasse iria levá-lo até o final em um bairro estranho, de ruas estranhas, casas estranhas, pessoas estranhas... Adentrar em algum bar estranho, tomar duas doses de conhaque ou vinho, prosear, tirar gosto e retornar; o convívio com pessoas estranhas e diferentes de seu meio era enriquecedor e gratificante. Estes passeios culturais faziam parte de sua vida, como um fetiche.
            A chuva já desabava em gotas minúsculas, beijando-lhe o rosto levemente e gotejava pela barba rústica por fazer a dois ou três dias. Havia, agora, pessoas encolhidas em seus sofrimentos e seus sentimentos frios indeléveis; pessoas que corriam da chuva para protegerem-se ou corriam pela urgência que a cidade impunha. “Ah! Essas pessoas solitárias, para onde vão?”. Para onde vou?
            Decidiu que o fetiche seria adiado, preferiu alterar a rota de seus desvarios e pegou o caminho da casa de uma amiga. Amiga esta que não via há algum tempo; amiga de um emprego enfadonho; mal remunerado, mas que a convivência e as amizades eram compensadoras. Iria visitá-la, queria compartilhar com ela o fim do dia e a entrada da noite.
            A rua estava deserta, talvez pela hora; talvez pelo dia ou pela chuva fina; chegou ao conjunto de apartamentos onde ela morava, aproveitou que algum morador ou visitante estava de saída e entrou no prédio, subiu as escadas e apertou a campainha... A surpresa da visita inesperada era um aliado ou inimigo oculto – uma faca de dois gumes. Havia um silêncio absurdo; depois sons dispersos e descompassados vindos do outro lado da porta, de dentro do apartamento.
            “Seriam de sandálias sobre o assoalho? Estaria sozinha?”, divagou.
            Enfim a porta foi aberta. Ella surgiu, linda, resplandecente, como sempre se mostrava; envolta em cambraia – o vestido colado ao corpo delineava as curvas, as derrapadas, aclives e declives, as formas perfeitas que o verde-limão florido moldava, tornando-a ainda mais sedutora. O cabelo solto, liso; a tez morena; os lábios cor de mel; era pequena no jeito e na estatura, Iracema encarnada... As sandálias da mesma cor do vestido velavam os pés pequenos e delicados.
            O sobressalto passado, Ella abraçou-o, beijou-lhe rápido a boca e convidou-o a entrar.
            - Você sempre me surpreendendo, hein... Entre e fique à vontade.
            - E não há nenhum problema em me receber... Os vizinhos...
            Ella pousou a cabeça sobre os seus próprios ombros, piscou e disse: “Mi casa, su casa”, e Péricles pode distinguir um estalo, o crepitar da língua dela chicoteando o céu da boca em meio o balbuciar sensual da frase.
            Um sofá azul, coberto por uma manta vermelha e almofadas pequenas em estilo árabe, lhe fora indicado como assento; Péricles atendeu prontamente o pedido, assentou-se recostando no espaldar, permitindo que o corpo acomodasse-se. Dirigindo-se ao bar, Ella recolheu uma garrafa de vinho tinto e depositando-a na mesa de centro em frente a Péricles.
            - É minha sugestão para aquecer as palavras e pela chuva...
            - Aceito por ser o meu néctar de predileção e para secar estas gotas que ainda insistem em manter-me úmido.
            Ella retornou ao bar, recolheu o saca-rolha, voltou estendendo-o a Péricles que se prontificou em abrir a garrafa de vinho, enquanto Ella desaparecia por uma porta acortinada por pequenos pedaços de bambus entrelaçados por sisal, que quando movimentados produziam um som parecido com móbiles orientais que dizem, trazem harmonia para dentro da casa de quem às possui se embalados pelo vento, naquele momento o vento era o corpo da amiga.
            Péricles perscrutou brindes imaginários, portas sendo abertas e fechadas, o esgrimir de talheres e depois, silêncio... Ella voltou com duas taças de vinho pendendo entre os dedos da mão esquerda e na direita, uma baixela contendo queijos cheddar e prato e presunto cozido, cortados em pequenos cubos, que também, foram depositados na mesa de centro. Servido o vinho às taças, degustaram do mel e do repasto frugal, Ella sorvendo todo o conteúdo de uma vez e Péricles lentamente, captando o momento e tornando-o infinito. Conversaram trivialidades, riram juntos, Péricles pediu licença, levantou-se foi até a estante, pesquisou alguns títulos e após escolher a esmo, introduziu o disco de cd no aparelho e deixou a música inundar o ambiente. Cantarolaram alguns versos das músicas que desfilavam para eles.
            Em um movimento lépido, Ella retirou-se da sala pelo mesmo acortinado deixando atrás de si os diversos sons de bambus e desapareceu. Voltou poucos minutos depois com uma talha de barro em uma das mãos e na outra pendulava uma toalha pequena de cambraia branca. Ella postou-se diante de Péricles, afastou a mesa de centro, ajoelhou-se, pousou a talha e a toalha no tapete de motivo indiano, ergueu o rosto e disse:
            - Recoste-se no sofá, feche os olhos e os mantenha assim... De maneira nenhuma você pode abri-los.   
            Péricles assentiu, cegamente...
            A taça de vinho fora-lhe arrebatada da mão. Ouviu-se o som de um líquido sendo despejado na talha, um som seco, comprimido; a toalha de cambraia branca foi envolvida pelo líquido e torcida, agora era mais esparso, solto, era o vinho tinto...
            A mão de Ella deslizou por sobre o jeans de Péricles, alcançou o fecho-éclair... Ella percebeu a vibração involuntária nas pupilas de Péricles, disse: “Não!”
A mão avançou vagarosamente sobre o fecho, e seguro por entre os dedos, foi deslizado até sua base; o emaranhado de tecidos foi afastado e o pênis foi envolvido como se envolve um pássaro quando tirado do ninho e libertou-o. Péricles retesou o corpo ao sentir o tecido úmido e frio encobrir seu falo, que a partir deste gesto viu-se sendo banhado e limpo, e, a cada mergulho da cambraia na talha e a cada banho e limpeza, tornava-se mais hirsuto. O vinho gelado fez com que o corpo de Péricles enrijecesse ainda mais, porém o banho já estava findo, Ella havia terminado a limpeza com o mesmo carinho devocional que se dedica a um pássaro antes de soltá-lo.
               Péricles obteve novo enrijecimento do corpo, o choque térmico quase o fez abrir os olhos, agora era um calor morno, suave, bom... Eram os lábios de Ella. Péricles tentou esboçar uma reação e pensou em agarrá-la, deitá-la no tapete de motivo indiano, e possuí-la ali mesmo, mas Ella simplesmente espalmou a mão sobre o seu peito e desviando da performance, disse:
            - Não abra os olhos e fique imóvel...
            A obediência é a melhor das virtudes humanas. Enquanto Ella proporcionava-lhe um prazer inenarrável, Péricles deixou-se ficar imóvel; e isto era muito bom e durou um tempo do qual Péricles não se preocupou em mensurar.
            Os acontecimentos vividos até ali, eram fascinantes, um sonho inerente àquele acontecimento, destarte, o perigo, também. Ocorreu a Péricles o flagrante. Ele mal conhecia o marido – se é que Ella ainda estivesse casada, eles não haviam participado o assunto -, o amante ou seja quem quer que fosse; apenas o tinha visto em companhia de Ella e o cumprimentado nas pouquíssimas vezes em que seus colegas comuns, em casa destes, compartilhavam saraus, aniversários e confraternizações, apenas uma cordialidade muitas vezes recíproca. Sob o domínio do medo, a melhor aliada é a calma, a serenidade de espírito. Como sempre depois da tempestade, os pensamentos de Péricles abandonaram o pânico inicial e ele pôde entregar-se a bonança, deixando-se deleitar e ser deleitado. Era um sonho...
            A mão direita de Ella ainda mantinha-o estático em seu lugar; Péricles não queria despertar do sonho. Sentiu que o orgasmo final não iria demorar a eclodir e deixou com Ella as rédeas, afinal, ela era a dona da situação. Péricles não sentira nada tão irreal; precipitou-se um leve devaneio, uma vertigem que lhe revirou os olhos e desfaleceu... Quando voltou a si, milésimos de segundos depois, Ella absorvera tudo: a mesa de centro em seu lugar, a talha de barro e a toalha de cambraia desaparecidas, as taças de vinho cheias, o falo guardado em seu repouso habitual. Péricles olhou para Ella e os doces olhos amendoados brilhavam com uma luminosidade viva. Ella caminhou até ele, beijou-lhe a boca e seus lábios cor-de-mel ainda conservavam o gosto agridoce.
            - Sinto muito, meu amigo, mas agora você precisa ir para que eu possa tomar um banho e me recompor...
            Ella enlaçou o braço de Péricles e o acompanhou até a porta, beijou-lhe novamente os lábios e quando ele alcançou o primeiro lance da escada, disse:
            - Péricles...
            Ele voltou-se; Ella semicerrou os pequeninos olhos, piscou um deles e fechando a porta em lentamente, solfejou:
            “- FELIZ ANIVERSÁRIO...”

domingo, 7 de agosto de 2011

Por que sexo é tão divertido


Imagem retirada da web

Sob este título, Stephen Kanitz, em sua coluna Ponto de Vista na revista Veja de 16 de julho, 2008, comenta: ‘ Sexo precisa ser divertido, mas o segredo do divertimento são o comedimento, a surpresa e o mistério, e não essa massificação e banalização a que estão nos submetendo’.
Concordo plenamente com o Sr. Stephen, realmente nos empurram goela abaixo e massificadamente o que teria que ser divertido, tão divertido que foi pensando nesta diversão, na incrementação do casamento, no aquecimento do sexo a dois, que outro dia ouvi minha querida esposa ser convidada por uma amiga consensual a irem a uma loja destas que comercializam acessórios que podem por fogo em qualquer vidinha medíocre de um casal carrancudo. A amiga iria adquirir uns “tais” acessórios, minha honorável esposa iria só como companhia.
O véu da noite se mostrava totalmente estrelado quando cheguei a casa e para minha surpresa ela estava às escuras, apenas iluminada por velas em pequenos castiçais que mostravam sombras bruxuleantes nas paredes, que serpenteavam suas sombras tal quais bailarinas exóticas orientais, uma dança dos véus estilizada.
Atravesso a sala entre temeroso e hesitante, chamava e ninguém atendia, o clima de mistério já tomava proporções gigantescas, meus batimentos cardíacos descompassavam-se freneticamente. O pavor começava a dominar a calma. Apesar de tudo, ainda assim eu avançava, passo a passo. Os cômodos estavam vazios e me aproximei do último; meu quarto de dormir em esta penumbra estava envolto em mistério, sob a cama, minha amada esposa, em pose de Cleópatra sobre o divã serpenteava o braço me convidando a acomodar-me na cama.
Vestia um peignoir curtíssimo e uma camisola aberta na frente, revelando aquele corpo já conhecido e percorrido pelos anos de convivência. Consegui atenuar o medo e, a excitação agora é que começava a ganhar espaço. Minha dileta esposa, então fez um movimento, que a princípio julguei ser um revolver ou alguma arma branca que vinha de baixo do travesseiro, onde minha adorável esposa colocara a mão, mas o que surgiu me surpreendeu mais ainda.
Eis que surge, por entre os dedos da minha venerável esposa uma peça que a primeira vista não distingui devido à escuridão do lugar. Avancei um passo e segurei a peça na mão e esticando-a, revelou-se que era uma cueca em forma de elefante com orelhas, olhos boca, trompa e tudo o mais que possa identificar tal paquiderme. Minha primeira reação foi rir, mas como sou uma pessoa de mente aberta, um cara esclarecido, um pseudo-intelectual da classe ‘C’, retirei-me para o banheiro e voltei com aquela peça íntima exposta no corpo já não tão jovem e esbelto. Parei em frente a minha inestimável esposa e pensando em incrementar ainda mais o clima, iniciei uma dança exótica, tipo estas de ‘axé-music’, foi quando minha maravilhosa esposa desatou a rir. Era uma gargalhada incontrolável; ela esmurrava o colchão, o travesseiro, e a gargalhada aumentava paulatinamente. Pensei nos vizinhos vindo bater à porta, questionando o volume; pensei na polícia, nos jornais, nas fotos que eles exibiriam, nos telejornais, e eu saindo algemado, uma toalha no rosto e o paquiderme balançando entre as pernas hirsutas em closes enormes.
Comecei a ficar constrangido, minha fenomenal esposa não parava de rir. Fiquei sério, e parece que deu certo pois minha digníssima esposa diminuiu a intensidade da gargalhada. Eu ali em pé, estagnado, as meias que eu calçava, pareciam coladas ao chão com colas de adesivo rápido. Até que de repente, minha alegre esposa parou, olhou-me e abriu um sorriso largo. Não entendi, patavina. Sacudi os ombros perguntando o ‘por quê?’ daquilo tudo.
Ela pega o lençol, enxuga as lágrimas que as intensas gargalhadas produziram, me olha e diz:
- Querido, não pude resistir!.... Quando te vi, dançando, eu vendo aquele elefante vindo na minha direção, as orelhas balançando, os olhos balançando e a tromba balançando, a língua balançando... A língua balançando?!!! Foi aí que vi que a tromba era bem maior que seu falo e ele vinha pendulando de um lado ao outro, como se estivesse morto, uma língua morta, não resisti... embrenhou em nova gargalhada...
Sentei no chão e chorei...